sábado, 25 de junho de 2011

A Indústria Cultural – de Wilhelm Richard Wagner a Michael Jackson





A Indústria Cultural, termo empregado pela primeira vez pelos sociólogos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer (membros da Escola de Frankfurt) põe em evidência o surgimento de uma nova forma de produção humana desenvolvida e lapidada no século em que todas as paixões humanas se encontrarão num panorama de mundo massificado e orientado sob a égide de um modelo econômico moldado ao longo dos últimos séculos, o capitalismo.

O século XX traz para o mundo o primeiro bilhão de habitantes e junto desta imensa população global um sem número de acontecimentos, pensamentos, tendências, atitudes, comportamentos, virtudes e etc. É neste século também que o Capitalismo encontra a propaganda e a emoção dos espetáculos (La société du spectacle).

A indústria cultural desenvolve uma realidade de um imenso consenso informal, o “mainstream”, em especial da cultura ocidental, numa grande síntese cultural preparada para aderir com eficiência no cotidiano das massas e deste universo garantir a manutenção última do sistema liberal.

Para que fosse necessário o estabelecimento com sucesso e solidez desta indústria, pudemos identificar ao longo do século XX um código de estímulos emocionais que capturam as emoções das massas e as embriagam a tal ponto que passam a ser manipuláveis, de acordo com o objetivo de seus condutores. Os primeiros grandes exemplos de manipulação emocional das massas, contudo, não demonstrava interesses claramente econômicos, mas políticos.

O Nazismo inaugura o marketing e a propaganda

Hitler e a estética e retórica nazistas levam pela primeira vez, numa cultura ocidental, a prática os efeitos emocionais do Romantismo nacionalista, moldando uma ética de orgulho e pertencimento nacional sem igual na Alemanha Nazista. Para que isso fosse possível, a grande inspiração não poderia ter sido outra além das contribuições artísticas e teóricas de Wilhelm Richard Wagner. É célebre a frase de Hitler sobre a sua própria doutrina política: “Não se compreende por completo o Nacional Socialismo se não se compreende Richard Wagner”.

Quem foi Richard Wagner?


Wilhelm Richard Wagner foi um maestro, compositor, diretor de teatro e ensaísta alemão do século XIX. É considerado um revolucionário das artes, sendo atribuído a Wagner uma série de pioneirismos da linguagem musical e artística, introduziu a noção de “Leitmotiv” (motivo condutor) na Ópera, o cromatismo extremo e a rápida mudança dos centros tonais, desenvolvendo assim novos parâmetros na música erudita européia. Pelo arrojo de suas produções artísticas, que também integravam elementos do Romantismo alemão, suas idéias são consideradas fundamentais no desenvolvimento da própria linguagem nazista no século XX. Os estímulos emocionais na música Wagneriana seriam as maiores inspirações pro desenvolvimento de uma narrativa de “orgulho nacional” na cultura alemã, o que significou o braço artístico do Nacional Socialismo.

A “Cavalgada das Valquírias” é considerado um dos ícones da Ópera wagneriana



Exemplos de como a estética musical de Wagner são empregados na Indústria Cultural é o clássico tema de abertura da saga “Guerra nas Estrelas” de George Lucas. Tal orquestra é um dos maiores exemplos de que Wagner continua a contribuir para a construção de uma expressão musical capaz de cativar e captar as paixões humanas.



A Indústria fonográfica encontra Wagner

A Indústria Cultural se serve de Wagner o tempo todo para tecer um universo integrado das emoções. Com a Indústria fonográfica, não poderia ser diferente. No século XX, a noção wagneriana de Gesamtkunstwerk (Obra de arte total) encontra total e completa ressonância em uma gama de cantores, compositores, bandas e etc. Sua estética é lapidada a cada geração, indo, por exemplo, de Frank Sinatra à Chuck Berry, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones e mais recentemente a Michael Jackson (dentre muitos outros exemplos).



Referências: Oficina "História e Audio-visual: Indústria Cultural, Cultura Midiática e Sociedade do Espetáculo (séculos XX-XXI)" do historiador Wagner Pinheiro Pereira

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ditaduras militares na América Latina - ascensão e queda

Quando observamos a História política na América Latina, é praticamente inevitável desfazer-se da idéia de que a influência exercida pelos Estados Unidos da América na conformação de tendências e políticas governamentais foi imenso, políticas estas amplamente influenciadas pelo jogo de interesses, sejam eles interesses burgueses ou dos operários. Em meados do século XX, as repúblicas latino-americanas, no geral, passam por um processo de crise - que é fundamental pra compreender as décadas seguintes.

Vale ressaltar que a década de 1950 é um importante marco para o início desta crise - A revolução cubana em 1959 teve, para o nosso continente, o impacto metafórico de um "sopro de ar fresco". Foi a primeira revolução na América Latina a ter ido até o final e triunfado, promovendo uma grande insurreição camponesa e a uma greve geral.


Entre 1959 e 1961, Cuba viveu um período de muita turbulência política, o que incluiu até mesmo a defesa de tentativas de invasão e contenção da revolução por meio de forças militares norte-americanas (Invasão da Baía dos Porcos). Um fator agravante é que a União Soviética, grande símbolo de revolução social e implantação do modelo socialista não havia visto a Revolução Cubana com grande simpatia. Em meados da década de 1920, os soviéticos já não queriam mais pensar em revoluções. As políticas pós-Lênin, ou seja, stalinistas visavam a manutenção do status-quo soviético onde a "explosão" da Revolução é contida e administrada burocraticamente, numa perspectiva até mesmo conservadora.

Até que Cuba conseguisse estabelecer a solidez de sua revolução, a URSS mantinha-se como espectadora distante. Obviamente, após todos os sinais de que a Revolução enfim triunfaria, o próprio governo revolucionário cubano almejou uma aliança com a URSS, respeitando a política burocrática vigente. Este fato inclusive é considerado decisivo para o rompimento das relações de Fidel Castro com Ernesto Che Guevara – mais idealista e crente de que a revolução tinha um caráter universal, incentivando a instalação de grupos guerrilheiros em vários países da América Latina e Terceiro Mundo, chegando até mesmo a participar da luta armada em países como o Congo na África e nos planaltos da Bolívia - onde foi capturado e morto pelo exército boliviano amplamente apoiado pela CIA. Os Estados Unidos estavam convencidos de que o grande "cérebro" da Revolução cubana havia sido eliminado da cena, sem, contudo atentar-se para o fato de que o “espírito” contestatório já germinava em toda a América Latina.

A partir daí, toda a onda de influência direta e indireta da política norte-americana na instalação de governos contra-revolucionários visavam assegurar com tudo o fosse necessário, que jamais veríamos algo semelhante ao ocorrido em Cuba novamente.

O Golpe Militar de 1964 no Brasil e a Operação Brother Sam

O primeiro grande golpe militar na América Latina surge no Brasil, país de extensão continental que fazia fronteira com quase todos os países da América do Sul. Desde 1960, com a eleição da chapa Jan-Jan (Jânios Quadros e João Goulart, o “Jango”) o programa de governo de Jânio Quadros (que possuía no currículo uma ascensão meteórica ao poder que em 15 anos passou de professor de Geografia e Direito Processual Penal em São Paulo para Presidente da República, passando pelos cargos em São Paulo de vereador, deputado estadual, prefeito, governador e, por fim, presidente do Brasil com uma margem de vantagem que atingia os dois milhões de votos sobre o marechal Henrique Lott) não possuía vínculos com “clãs”, não tinha padrinhos, não era dono de jornal ou nenhum outro veículo de comunicação, não era rico, não possuía ligações com nenhum grupo econômico, não tinha vínculo com EUA e nem com a Rússia e por fim, condenava o comunismo. Jânio e seu programa de governo estavam completamente alheios a qualquer grupo de influência nacional e internacional na época e sua ascensão ao poder fortemente ligada ao seu incrível carisma e apelo popular representando genuinamente um político que buscava a estabilidade, rompendo com fórmulas antiquadas e uma abertura para novos horizontes. Combatendo à burocracia estatal brasileira, adotou uma prática que remete à Winston Churchill, o de comunicar-se com ministros sem intermediários direcionando memorandos – que foram apelidados jocosamente de “bilhetinhos do Jânio”. Uma série de ocorrências insólitas marcaria negativamente o governo de Jânio diante das alas mais conservadoras.

Uma condecoração ao líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara em 19 de agosto de 1961 com a Grã Cruz da ordem Nacional do Cruzeiro do Sul num ato de agradecimento pelo mesmo ter ordenado a libertação de sacerdotes cristãos de Cuba que estavam condenados ao fuzilamento, após um pedido de Jânio Quadros que representava na verdade as pressões vindas do Núncio apostólico brasileiro que o solicitou em nome do Vaticano – este entre outros atos que incomodavam o empresariado mancharam de vez sua reputação frente aos conservadores anticomunistas, levantando a hipótese de que Jânio simpatizava-se com o guerrilheiro argentino e o discurso de esquerda. Alegando “forças terríveis” que se levantavam contra si, Jânio renuncia do governo em 25 de agosto de 1961 tendo cumprido apenas sete meses de mandato.

Nesta mesma época, seu vice, João “Jango” Goulart, realizava uma missão diplomática na República Popular da China e mesmo com tentativas de impedir a sua posse como presidente em seu retorno, Leonel Brizola então governador do Rio Grande do Sul mobilizou o estado em defesa da posse de Jango, naquilo que ficou conhecido como “campanha da legalidade”. Na volta da China, Jango desviou o vôo para Montevidéu no Uruguai e aguardou o desfecho do impasse. Finalmente, em oito de setembro do mesmo ano, assume a presidência do Brasil.

Em 1962, o governo Goulart aprova o Plano Trienal elaborado pelo economista Celso Furtado – que dentre muitas características não possuía simpatia da alta burguesia brasileira. O plano falhou devida grande adesão das oposições ao boicote. A economia então mergulhava em um período de inflação e crises econômicas. Desgastado com o conflito de posições político-econômicas, em meio a acusações de que o Jango era um “subversivo”, em 1º de abril de 1964 o governo sofre o famigerado Golpe Militar, denominado de “revolução” por seus executores.

O golpe militar brasileiro não apenas contou com o patrocínio político-ideológico americano como também o apoio militar. À época do golpe, a CIA havia acreditado na possibilidade do golpe desencadear uma guerra civil e mobilizou toda a frota do Caribe para a costa brasileira munida de 100 toneladas de armamentos, uma esquadrilha de caças aéreos, um navio de transporte de helicópteros, um porta-aviões do tipo Forrestal, seis destroyers, um encouraçado, um navio de transporte de tropas, 25 aviões C-135 para transporte de material bélico entre outros. A invasão americana já estava completamente organizada caso o golpe de 64 falhasse. Não foi o caso.


O Golpe Militar de 1971 na Bolívia


A Bolívia já vinha adotando políticas econômicas conservadoras já na década de 60, abrindo a sua riquíssima indústria de minérios ao investimento estrangeiro. Movimentos guerrilheiros que se organizavam nos Andes bolivianos tornaram-se alvo dos militares liderados pelo então presidente Renée Barrientos. É neste período que o núcleo rebelde liderado por Ernesto Che Guevara foi derrotado, com ajuda da CIA, Che Guevara havia sido assassinado. A morte de Barrientos num estranho acidente de Helicóptero em 1969 gerou um período de grande instabilidade com uma sucessão de governos de curta duração até 1971, quando o então general Juan José Torres fora derrotado por um golpe de Estado liderado por Hugo Bánzer Suarez. A partir de então, a Bolívia não mais abrigaria qualquer sombra de guerrilhas opositoras armadas tanto na região andina quanto nas terras baixas a leste, próximas à fronteira com o Brasil. Presente na Bolívia desde a caça de Ernesto Che Guevara, a CIA proveu todo o know-how tecnológico, militar e intelectual ao governo Bánzer Suarez.

O Golpe Militar de 1973 no Chile

Salvador Allende havia conquistado o poder no Chile pela via eleitoral com uma campanha que propunha transformar o Chile em um regime socialista – ainda que de forma pacífica e apaziguadora, concedendo liberdade de imprensa e respeitando a constituição. O movimento operário do Chile era considerado um dos mais expressivos da América Latina - o que fazia das frentes de direita do Chile e os Estados Unidos desconfiarem da política amigável de Allende. Houve até mesmo o interesse explícito, de acordo com a Associated Press, de o governo americano impedir a posse do recém-eleito Allende em 1970. Optando por maneiras sutis de sabotagem ao governo Allende, posteriores acusações dão conta de que o governo americano passou a financiar maneiras de espalhar a desordem no Chile. Uma destas maneiras foi o de financiar uma gigantesca greve de caminhoneiros que afetava diretamente o abastecimento e mercado alimentício do país. As várias empresas transnacionais do Chile passaram a aderir à política golpista adotando uma série de medidas cuja finalidade era a de criar um ambiente instável cuja única forma de haver estabilidade política e econômica seria por meio de ação da força. Estava sendo criada uma gigantesca crise econômica artificial para mostrar não só que o governo Allende era um fracasso como também era preciso dos militares no poder.


É neste clima que em 1973 os militares chilenos decidiram aplicar o golpe de Estado, liderados pelo general Augusto Pinochet. À exemplo do que ocorrera no Brasil com a Operação Brother Sam, os EUA havia mobilizado navios e aviões para o Pacífico sul – a princípio alegando estar apenas participando de um exercício naval de rotina junto às marinhas latino-americanas e posteriormente alegando a observância da complicada situação no Chile, afirmando poder invadir o Chile sob o pretexto de, em decorrência da situação de instabilidade política do país sul-americano, zelar pelas vidas de cidadãos americanos residentes no país. Eram apenas máscaras que escondiam a retaguarda americana de prontidão caso houvesse resistência ao golpe militar de Pinochet. Há quem afirme que o verdadeiro início do Neoliberalismo se dá no Chile com Pinochet, que promoveu uma monstruosa onda de privatizações no país, tendo privatizado inclusive a educação chilena.


O Golpe de 1976 na Argentina


O golpe de 24 de março de 1976 era parte do chamado “processo de reorganização nacional” frente ao neoperonismo. A Argentina passava por um período de abalos econômicos, conflitos sindicais e constantes embates entre guerrilheiros de esquerda (ERP/Montoneros/PRT) – uma verdadeira frente esquerda armada contra milícias de ultradireita (Triple A) cuja principal atividade era a caça de subversivos. O golpe argentino havia sido fortemente influenciado pelo golpe chileno. A ditadura argentina, embora de pouca duração (1976-1983) é considerada a mais brutal da América Latina, com envolvimento em milhares de seqüestros, torturas e até mesmo campos de concentração. Foi a mais mortífera ditadura da América do Sul.

O golpe havia sido amplamente apoiado pelo governo norte-americano que possuía agora o apoio da Argentina junto aos outros países do cone sul para o que ficou conhecida de Operação Condor, uma liga de governos militares da América do Sul em ações que objetivavam a extinção total e completa de toda e qualquer organização opositora das ditaduras militares sul-americanas e grupos guerrilheiros de esquerda. O golpe argentino ainda contou com aviso prévio para os governos chileno e brasileiro, com telegramas enviados com meses de antecedência que além de avisarem sobre o golpe, mencionavam a adoção de novos planos econômicos assinados pelo então ministro da economia argentino José Alfredo Martínez denominado de “política de Neoliberalismo”, demonstrando clara inspiração chilena do modo como a Argentina conduziria o seu rumo econômico da segunda metade da década de 70 em diante.

A Argentina também receberia da FIFA, presidida pelo brasileiro João Havelange, a sede da Copa do Mundo de 1978 que foi usada pelo governo militar argentino como propaganda interna e externa de sua ditadura, utilizando do esporte mais popular do país, o futebol, como a grande ferramenta de manipulação da população, objetivando a criação de um espírito nacionalista contra a “ameaça comunista”. A Argentina foi campeã da competição de forma duvidosa, com acusações de manobras de bastidores que conduziram o time argentino ao título.

O declínio das ditaduras – o conceito de “redemocratização” na América Latina

Conforme vimos, as ditaduras militares ocorridas em toda a América Latina, em especial nos países mencionados, foi um processo orquestrado que tinha o objetivo de demonizar os eventos de 1959 em Cuba e impedir que o “sopro de ar fresco” gerado pela revolução cubana influenciasse os países latinos. A revolução cubana “ascendeu o botão de alerta” no poder político-econômico americano, de modo que os EUA passou a ver o problema da oposição política e econômica ao modelo capitalista não mais como um fenômeno do leste europeu, mas uma ameaça tão próxima ao ponto de estar em seu “quintal”. Foi aplicada uma série de medidas ousadas na política externa americana envolvendo todos os seus braços de influência para impedir que o resto da América Latina se tornasse parte do bloco comunista. Da perspectiva marxista, os EUA passaram grande parte da segunda metade do século XX orquestrando um movimento contra-revolucionário no seu próprio quintal num jogo de xadrez simultâneo às preocupações com a corrida espacial, armamentista e ideológica travada entre os EUA e URSS.

Entretanto, quando se percebe que a ditadura não funciona mais, não dá mais “liga”, emerge o conceito de redemocratização na América latina apoiado pela mesma burguesia que outrora apoiou a repressão. Percebe-se, portanto a necessidade de criar um afrouxamento artificial nestas ditaduras antes que elas causem uma nova revolução, desta vez mais inflamada e geograficamente integrada contra um inimigo em comum, a direita e o poder norte-americano. Este é um conceito que tomará toda a década de 1980 no Brasil e em toda a América Latina. A primeira ditadura a ruir é a mais violenta delas, a Argentina redemocratiza-se em 1983 em plena ressaca causada pela recém perda na Guerra das Malvinas.

Em 1985 caem as ditaduras no Brasil e Bolívia. O Chile redemocratiza-se apenas em 1990. Vemos, portanto um novo afrouxamento das tensões políticas que dão lugar agora a uma nova forma de controle, o Neoliberalismo, inaugurado na América Latina em 1973 com Augusto Pinochet. No hemisfério norte três figuras proeminentes se destacam na moldagem de um novo mundo: Ronald Reagan nos EUA, Margareth Thatcher na Inglaterra e o João Paulo II que na liderança da Igreja Católica passa a exercer influência decisiva no Leste europeu, preparando e antecipando o novo mundo que surgia com a queda da Cortina de Ferro. Os dois primeiros promovem a “ditadura absoluta do mercado” em extensão local e global enquanto João Paulo II reintegra o fator religioso ao novo panorama internacional. O mundo passou de uma guerra ideológica para redenção total à mão invisível do capital não antes de estar munido de uma “Bíblia na mão” - era talvez a mensagem definitiva de “segura na mão de Deus e vai”. O Estado passa então por uma crise identitária. Torna-se célebre logo após a Queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o Best-seller “O Fim da História e o Último Homem” (The End of History and the Last Man) de Francis Fukuyama, onde a História enquanto um embate de ideologias havia enfim atingido o seu hipotético fim.

Na América Latina, com o fim das ditaduras, emerge uma série de governos neoliberais. Na Argentina redemocratizada, vemos o surgimento do governo neoliberal de Raúl Alfonsín (1983) e Carlos Menem (1989), no Brasil: José Sarney (1986), Fernando Collor (1990) e Fernando Henrique Cardoso (1994). No Chile Patricio Azócar (1990) e Eduardo Ruiz-Tagle (1994), na Bolívia Jorge Quiroga (2001) e Carlos Mesa (2003).

A História não acabou: a ressaca neoliberal reinventa a esquerda na América Latina

As sucessivas crises econômicas surgidas a partir da adoção da política neoliberal (privatizações de empresas estatais, corte de gastos públicos, desregulamentações de serviços, fim de benefícios trabalhistas entre outros) promoveriam transformações profundas em nosso continente. Os governos de direita vão sucessivamente perdendo força e popularidade e os governos de esquerda “explodem” em eleições de toda a América Latina.


Vemos líderes como Hugo Chávez Frías (1999) na Venezuela, Ricardo Lagos (2000) no Chile, Luis Inácio Lula da Silva (2003) e Dilma Rousseff (2010) no Brasil, Néstor Kirchner (2003) e Cristina Kirchner (2007) e o retorno do Neoperonismo na Argentina, Evo Morales (2006) e a emergência do movimento cocalero na Bolívia, Rafael Correa (2007) no Equador entre outros, num fenômeno chamado de “Guinada à esquerda” marcam a política sul-americana deste início de século XXI, demonstrando que o poder político vem alternando de acordo com as conjunturas econômicas, demonstrando novas maneiras de encarar a política na América Latina não mais como refém dos interesses econômicos internacionais como um sujeito atuante no intrincado jogo de poder político e financeiro no mundo contemporâneo.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Hassan bin Sabbah - O precursor de Bin Laden



É comum vermos nos meios de comunicação de massa referências ao saudita Osama Bin Laden (morto no último domingo pelas forças militares americanas) como o grande símbolo do terrorismo religioso transnacional. Uma ressonância particularmente curiosa é encontrada em narrativas históricas que dizem respeito a um "senhor do terror" que vivia recluso em montanhas com um grande séquito de fanáticos religiosos.

No século XI viveu nas montanhas do norte do Irã aquele considerado por muitos a grande inspiração da vida de Osama bin Laden, Hassan bin Sabbah Homairi (conhecido no "O Livro das Maravilhas" de Marco Polo como Aladino, o Velho da Montanha.

Sabbah nascera no seio de uma tradicional família iraniana de Qom, 156km à sudoeste de Teerã, o grande centro de propagação de uma vertente esotérica do próprio Islamismo, o chamado "Ismaelismo", crença que se afastava do Islã sunita e xiita, acrescentando na lista dos profetas sagrados de matriz abraâmica (Adão, Noé, Abrãao, Moisés, Jesus e Maomé) o profeta Ismael - citado não só no Alcorão como também no Gênesis bíblico, como sendo o primeiro filho de Abraão com sua segunda esposa, a serva egípcia Agar.

Tendo estudado em Cairo, Egito em 1079, adquirira conhecimentos aprofundados do Alcorão além de textos do Antigo e Novo Testamento bem como escritos Vedas hindus (textos estes espalhados pelo Egito e Oriente Médio após as invasões de Alexandre o Grande, no século IV a.C.). Hassan unificou todos estes conhecimentos e adaptou-os ao Zoroastrismo - crença religiosa enraizada nas populações dos planaltos da Pérsia desde o século VII a.C.

Ao regressar para o Irã, passou a propagar a integração de todas aquelas crenças numa única doutrina, inquietando as autoridades locais. Na época, o Irã passava por um período de dominação dos turcos seljúcidas, adeptos da ortodoxia islâmica sunita e que já perseguia a vertente islâmica xiita, preferência iraniana de longa data.

Expulso do território iraniano, inicia andanças por todo o Oriente Médio, adquirindo um séquito importante em faixas territoriais que iam da Síria à região montanhosa ao sul do Mar Cáspio. Fixa-se nas regiões da Cordilheira de Elbruz, escondido em um vasto território de planaltos de difícil acesso, com montanhas que ultrapassavam os 5.000 metros de altitude, como o mais alto daquela região, o pico Demavend com exatos 5.655m do nível do mar.

Em 1090, com apoio de seus seguidores, promove a conquista da fortaleza de Alamut que significa "Ninho da águia" em persa. Alamut é uma fortaleza inexpugnável localizada no pico de uma montanha de 2.100 metros de altura construída aproximadamente no ano de 602 da era cristã para servir de refúgio ao líder Wahsudan, da província iraniana do Dailam. Da fortaleza do Alamut, Hassan bin Sabbah orquestrou a organização de uma seita apelidada de "Assassinos". As origens da empregabilidade do termo "Assassinos" é ainda fonte de muitas especulações. O termo derivaria do árabe "Hashishin" (usuários da erva "hashish" ou "haxixe"). Contudo, outras investigações concluem que Hassan bin Sabbah denominava o seu próprio grupo de "Asasiyun" que desginaria à pessoas que mantinham-se fiéis ao "Àsas" (que significa "fundação" em persa, fundação neste caso, uma referência ao próprio início de sua seita religiosa). A crença de que os "Assassinos" eram usuários de haxixe contudo, ainda mantém-se bastante popular entre vários historiadores. O termo "assassino" não só na língua portuguesa em outras línguas, é derivada da seita de Hassan bin Sabbah.

Não tardou para que aquele novo culto islâmico atraísse cada vez mais seguidores que passaram a organizar-se em três níveis hierárquicos, os iassek, (a grande massa de fiéis), os mujib - fiéis mais dedicados ao culto e por fim os fedayin que se sacrificavam em nome da fé. Muitas das informações vindas do grupo, até mesmo pelas dificuldades de comunicação existentes uma vez que estavam baseados em uma região extremamente isolada, são em sua maior parte, oriundas de fontes orais. Abundavam, por exemplo, relatos referentes às táticas usadas para induzir novos fiéis como a prática de ritos que levavam indivíduos à experiências em que eram convencidas sobre as "vantagens" da morte. Tais ritos envolviam o uso de substâncias psicotrópicas ou experiências sexuais com mulheres virgens. As várias paisagens e jardins naturais dos vales que rodeavam a fortaleza de Alamut, eram utilizadas como exemplos de "realidades metafísicas" que seriam presenteadas aos seguidores que obedecessem as ordens do líder Hassan bin Sabbah. Muitos seguidores praticavam o suicídio caso o líder exigisse, como forma de provar obediência e fé, pois o paraíso era assegurado àquele que fosse fiel às causas da seita - o que poderia incluir ordens para que seus fiéis partissem em missões cujo objetivo era o de matar figuras proeminêntes do clero e realeza espalhados por todo o Oriente Médio.

Emires, governantes de cidades, comandantes e clérigos de toda a região passaram a se preocupar com sua segurança e a utilizar armaduras em metal no seu dia-a-dia temendo ser vítima de atentados realizados com adagas ou espadas. Os assassinos apunhalavam suas vítimas geralmente pelas costas. Uma tática de intimidação bastante comum entre os assassinos era o de deixar um bilhete fixado com uma adaga na parede dos cômodos das vítimas, avisando-lhes da iminência de um atentado à suas vidas e quando menos se esperava, retornavam e executavam a vítima. Desta forma, a seita de Hassan passou rapidamente a ser conhecida como uma organização perigosíssima que recrutava assassinos políticos que durante um período considerável de tempo espalhou o terror e desconfiança em um Oriente Médio que também já sofria de invasões cristãs vindas da Europa, os Cruzados.

O Velho da Montanha - Imortal?

Após a conquista da fortaleza de Alamut, muitos seguidores da seita e o próprio Hassan bin Sabbah não tinham o costume de deixar o local. Era o esconderijo perfeito e poucos realmente conheciam a sua verdadeira localização.

Sabe-se que Hassan conquistara o Alamut com 56 anos de idade e estima-se que tenha vivido até os 90 anos de idade. A lenda de sua imortalidade surge porque possivelmente seus sucessores mantinham os mesmos costumes e práticas atribuídas à Hassan e como a notícia de suas mortes e sucessões raramente saíam dos limites da fortaleza, acreditava-se que "O Velho da Montanha" fosse imortal pois gerações após gerações ainda se ouvia falar do líder que se refugiava nas montanhas ao norte do Irã, em um corte cronológico que foge dos parâmetros de longevidade humana como o período de 1090 à 1256.

O fim da seita e a tomada de Alamut

O fim da misteriosa e perigosa organização é datada do século XIII quando uma onda de guerreiros mongóis avançam sobre a Ásia Central, tomando como base a cidade de Tábriz na Armênia. O imperador mongol Hulagu Khan liderou campanhas militares na maior parte do Oriente Médio e Ásia Menor, levando consigo a tomada de várias cidades e territórios o que incluiu a Fortaleza de Alamut em 1256. Era o fim de um reino de horror - que veio a encontrar curiosas ressonâncias no século XX e XXI com a Al Qaeda de Osama bin Laden.


Referências:

Bin Sabbah, o Homem que Inspirou Bin Laden (Marie Helène Parinaud) http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/bin_sabbah_o_homem_que_inspirou_bin_laden.html

Marco Polo: O Livro das Maravilhas Tradução de Elói Braga Júnior. Porto Alegre: L&PM, 2006.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Entendendo o "Lulismo"

Um dos fenômenos mais complexos dos governos de centro-esquerda da América Latina é a compreensão do "Lulismo" no Brasil, dotado de muitas particularidades que o tornam mais complexo que qualquer outro governo popular na América Latina. O governo do Lula acabou, mas a burguesia, quem diria, está com saudade. Como isso é possível? Para entender o fenômeno do "Lulismo" é preciso compreender que os anos 90 foram de mudanças radicais na estratégia de luta do Partido dos Trabalhadores.

Isso se deu em grande parte devido à singular Eleição presidencial de 1989 - onde muitos argumentam principalmente a própria liderança do PT, que se o Lula tivesse ganho (e ele quase ganhou não fosse o jogo sujo do Collor e da Globo), possivelmente ele não teria tomado posse. É muito provável que se Lula fosse eleito, teríamos visto um novo golpe de Estado no Brasil liderado ocultamente pela burguesia brasileira. Isso ao que tudo indica, me parece extremamente verossímil. A imagem que Lula passava na época era de grande medo. O Lula representava toda aquela classe operária de altíssimo teor contestatório.

Portanto, o Lula e o PT saíram das eleições de 1989 cientes de que mesmo ganhando uma eleição, o poder no Brasil é sem sombra de dúvidas uma das atividades mais complexas que existem. É a partir daí que surge a ala que defende uma maior flexibilidade política trabalhando com a idéia das conjunturas. É preciso jogar de acordo com as regras do jogo e para muitos partidários, isso não representava necessariamente uma "traição" dos valores fundamentais do PT, pelo contrário, trata-se de um estratagema para tornar as relações de poder flexíveis, adquirir confiança e paralelamente a isso, efetuar as mudanças sociais acessíveis de acordo com as regras do jogo.

O PT se convenceu que no Brasil não se faz política sem alianças apaziguadoras com a classe burguesa. A classe operária o PT já tinha, era preciso conquistar o outro lado. Por isso identificamos esse processo de ruptura dentro do próprio PT. As alas radicais, defendidas ideologicamente por Plínio de Arruda Sampaio discordaram veementemente desta estratégia. Plínio acreditava ainda na manutenção do discurso inflamado dos anos 80 e a questão da obtenção do poder era o de menos. Plínio acreditava que, através do processo histórico, a sociedade brasileira gradativamente adquiriria consciência de classe (daí a importância reservada ao uso eficaz de meios de comunicação disponíveis, desde os mais simples aos mais sofisticados como a internet). Nem que isso levasse muitas gerações por ocorrer, a consciência do "operariado" despertaria de dentro das relações sociais no decorrer do tempo. A partir daí não importaria se o Lula perdesse todas as eleições que disputasse, o povo invariavelmente identificaria em seu discurso a razão.

Ao pensarmos desta perspectiva, Plínio - mais utópico e idealista - acredita numa Revolução mais sólida, concreta e sem hibridismos num verdadeiro "marxismo etapista". No entanto, o argumento favorável à política de alianças é a de que jamais na América Latina seria possível a prática de etapas previstas por Marx. Num argumento até mesmo próximo à ideologia do filósofo cubano José Martí, argumenta-se que a América Latina nascera de um processo incompleto de evolução econômica. Passamos de um colonialismo escravocrata direto para o sistema Capitalista, de modo que a burguesia latino-americana é naturalmente débil, dependente de representações estatais. Portanto, o movimento de mudança é naturalmente refém da política nacional.

É munido desta perspectiva que vimos um PT reformado e graças a essa reforma ideológica de conjuntura é que atribuem o imenso sucesso de Lula. A manutenção do discurso social do Lula acabou sendo expressa através do amplo sistema de bolsas e cotas, em outras palavras, na política do assistencialismo como medida legítima de modificação da sociedade brasileira de um estágio "A" para o estágio "B" sem discutir a eficácia das medidas. O fato indubitável é a mudança. Se ela foi sólida ou não, só a História revelará.

O mensalão, à esta ótica, é justificável?

Completamente. Imaginemos que o governo de Lula promovesse uma ruptura de negociatas anteriormente estabelecidas, o seu governo já estaria entrando em atrito com os interesses burgueses logo de cara, estabelecendo portanto uma oposição popular bastante relevante - imagem que o PT reformado almejava afastar-se. A questão a ser discutida é até que ponto a corrupção pode ser utilizada a favor de um modelo de administração governamental? Cabe a nós cidadãos discutirmos estes problemas, procurarmos o debate direto a respeito desse tipo de política. As dissimulações, concessões, manobras são politicamente justificáveis?

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Afinal, por quê o século XX foi tão conturbado?



Na contemporaneidade, ao observarmos o comportamento social dos indivíduos, é comum vermos uma tendência acentuada das pessoas para a busca de um objetivo de vida. Não se trata apenas de traçar uma meta de vida e segui-la com paciência, resignação e cuidado, trata-se da busca por isso e muito mais. O ser humano ao longo das últimas décadas tornou-se tão global e diverso, que as mudanças lentas e pouco diversas ao qual o cérebro humano até então estava acostumado passou a funcionar em um ritmo muito mais veloz.

Em tempos antigos, um processo de mudança política, social e econômica levava o tempo de uma ou mais vidas, de modo que muitos indivíduos sequer notavam a existência de um processo, relacionando-o com o tempo e o espaço. Ademais, torna-se ainda muito mais complicado designarmos tais pessoas como um indivíduo coletivo e consciente. Até meados do século XIX, em muitas cidades de estados considerados culturalmente proeminentes como a França ou Inglaterra, havia núcleos populacionais que, separados pelo espaço, pouco ou nulo se comunicavam ou sentiam tal necessidade. Tal fato em muitos casos era observado até mesmo entre diferentes bairros de uma mesma cidade, até mesmo Paris do início do século retrasado. Havia uma gama de universos paralelos numa mesma cidade ou país. É possível que a noção de que algo não está em seu devido lugar, analisando o quadro acima descrito com a mentalidade atual, tenha origens num evento em particular – a Revolução Francesa. No momento em que muitos se rebelavam contra o sistema, muitos não sabiam afinal o que faziam no sentido mais amplo das relações político-sociais. Em muitos casos, as pessoas se revoltavam porque passavam fome.

A noção de que é possível mudar e se reciclar em prol de uma causa e a idéia de que para o ser humano a mudança é condição da vida, se desenvolveu na sociedade européia ao longo do século XIX tendo como partida este evento político acima citado, tamanha a sua contundência histórica e tamanha as mudanças que proporcionaria na sociedade até então. Uma das obras literárias que melhor exprimem o pensamento do homem moderno que se desenvolvia em meados do século XIX é o clássico “O Fausto” do escritor alemão Johann Goethe. Nele, o autor compõe a narrativa de um homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de sua época, faz um pacto com o demônio Mefistófeles, enchendo-o com aquilo que era o seu maior desejo, uma energia inspiradora de paixão pela técnica e pelo progresso. Conforme o contrato com o demônio, Fausto em troca, entrega-lhe a alma.

Tal obra traz em Fausto um arquétipo do ser humano. Basta uma decepção com o continuísmo da vida, para que um desejo sufocante de manipular a vida e acelerar o seu processo de mudança incendeie nossas mentes. A partir do momento em que nos tornamos mais suscetíveis às mudanças, nos tornamos uma grande “metamorfose ambulante”, num ritmo tal que hoje, não nos sentimos seguros se não mudamos. Estamos mergulhados numa grande paranóia em que a estabilidade representa a constante mudança e relacionamos a estagnação a um passado distante que deve ser esquecido. É munido desta mentalidade, que devemos analisar a História do século XX.

Em nenhum século de nossa História, observamos um período de tantas mudanças em um curto espaço de tempo. Fazer a História do século passado é muito mais do que enumerar fatos e analisa-los individualmente. Todos partem de um tronco só, de que o ser humano nasceu para mudar. Todo o sentido de mudança que o homem foi desenvolvendo ao longo do século XIX culminou com o quadro caótico do século XX.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O Semeador e o Ladrilhador

É famoso o capítulo do clássico ensaísta brasileiro "Raízes do Brasil" de Sérgio Buarque de Holanda que trata a respeito de como a disposição urbana de um determinado local reflete com grande precisão as motivações psicológicos e de mentalidade de um determinado povo ou cultura. Sempre me interessei por este assunto, afinal ao passo que identificamos incríveis semelhanças da América portuguesa que vivemos com a América espanhola, por outro lado identificamos diferenças que chamam a atenção por ir além da simples diferença lingüística, sobretudo no mundo globalizado em que vivemos.

Certa vez me perguntaram, como é possível Portugal e Espanha - países tão semelhantes culturalmente promoverem estilos de comprometimento e dominação sobre suas possessões ultramarinas - sobretudo nas Américas, tão distintos? Em verdade, por um período de tempo considerável do colégio, no senso comum acadêmico - estamos todos acostumados e acomodados com o modelo generalizante de separar a História da ocupação européia na América de duas formas, a "colonização de exploração" promovida pelas potências ibéricas e a famosa "colonização de povoamento" promovida pelos pilgrim fathers ingleses. Separamos dois estilos de colonização na América sem nos atentar até mesmo na possibilidade de encontrarmos nesta América Ibérica modelos muito diferentes e curiosos de dominação política e econômica.

O "Semeador e o Ladrilhador" é o capítulo que traz uma análise inédita do caráter histórico das colonizações ibéricas na América. Mergulhar nas disposições urbanas de cidades como São Paulo, Buenos Aires, Rio de Janeiro, Cidade do México, Caracas, Quito, Salvador, Santiago e etc é mergulhar no inconsciente daqueles portugueses e espanhóis nos séculos XV e XVI - não só daqueles que aqui chegavam mas daqueles que da metrópole orquestravam a "obra de conquista".

Recentemente, o lançamento de um serviço de "cobertura" fotográfico desenvolvido e disponibilizado pelo Google, o chamado "Google Street View" tem gerado um certo frenesi nos fãs de urbanismo e um incomum jogo de comparações. O Google Street View traz uma série de fotografias em 360º metro a metro de praticamente todas as vias das principais metrópoles do mundo. Na América Latina, o primeiro país a contemplar este serviço foi o México ainda em 2009. Usuários do serviço, sobretudo brasileiros - além de ressaltarem em fóruns especializados na internet as "falsas grandezas" outrora publicadas por usuários mexicanos, onde pelo contrário, vemos uma Cidade do México rica mas também extremamente desigual, ressaltam e demonstram também uma curiosa observação. Os bairros mexicanos - sobretudo do centro da cidade seguem um padrão de bloco muito específico e racional. Em 2010 o Brasil é que teve sua versão do Google Street View lançada, desta vez foram os mexicanos que avaliaram a cidade na internet e além de identificarem semelhanças com a Cidade do México no tocante à desigualdades sociais, notaram também a grande sinuosidade da cidade com bairros equidistantes de maneira não-linear, sem uma lógica geométrica - como é comum à cidades do México.

Ao analisarmos as cidades de toda a América espanhola, logo começamos a perceber uma sutil diferença. Todas as cidades genuinamente espanholas no Novo Mundo seguem um padrão geométrico estabelecido pela corte espanhola nas Leyes de las Indias (pormulgadas por Carlos I de Espanha em 1542). Tais ordenações visavam planificar e organizar todas aquelas vastas regiões de terra conquistadas pelo Império espanhol. Estas disposições ordenavam a criação de cidades estritamente planejadas - sem que houvesse por outro lado o menor pudor em sobrepor a lógica e racionalidade hispânica à cidades erigidas por civilizações avançadíssimas pelas quais os espanhóis entravam em contato. Vejamos alguns trechos das Leyes de las Indias:

Y ordenamos, que siempre se lleve hecha la planta del lugar, que se ha de fundar: (...) y quando hagan la planta del lugar repartanlo por sus plazas, calles y solares á cordel y regla, comenzando desde la plaza mayor, y facando desde ella las calles á las puertas y caminos principales, y dejando tanto compás abierto, que aunque la población vaya en gran crescimiento, se pueda siempre proseguir y dilatar en la misma forma (...) Las tierras que se huvieren de poblar, tengan buenas entradas y salidas por mar y tierra, de buenos caminos y navegación para que se pueda entrar y salir facilmente, comerciar, governar, socorrer y defender.

Percebam portanto a preocupação espanhola em fundar em território conquistado, bases sólidas da cultura organizacional de uma Espanha recém unificada. Esta disposição urbana ficou largamente conhecida como o esquema "Plaza Mayor" de onde toda a cidade deveria desenvolver-se - diferenciando assim das cidades portuguesas na América, onde o centro obrigatóriamente deveria ser uma Igreja e não uma praça. No Brasil, diferentemente do que ocorria no resto da América, não havia a menor preocupação com o planejamento urbano - nada que fosse além apenas de "local estratégico" e de escoamento de pessoas/produtos de forma mais eficaz. No Brasil Colônia, as primeiras procupações de fundações de cidades centravam-se estritamente nas questões de valorização religiosa como mostra as Constituiçoens Primeyras do Arcebispado da Bahia de Dom Sebastião Monteyro.

Além disso, as famosas Ordenações Afonsinas (1446), Manuelinas (1521) e Filipinas (1569) chocam pela total e completa ausência de uma linha sequer sobre planejamento edificacional em território americano. Temos de admitir que os esforços lusitanos no Brasil tinham de fato um caráter mais imediatista, fundamentalmente costeiro - voltado pro Atlântico, enquanto os espanhóis desbravaram os rincões interioranos da América. Desta forma, observamos na História de nosso continente colonial, o surgimento de dois tipos distintos de colonizadores, os portugueses como "semeadores" de ocupação enquanto vemos os espanhóis como verdadeiros "ladrilhadores" de cidades. Agora a pergunta, por que tal diferença? Os portugueses teriam de fato sido mais desleixados com o Brasil? A resposta é: não necessariamente.

Tanto em Portugal quanto na Espanha, desde as primeiras ocupações territoriais datadas do período romano, existiram cidades irregulares, não lineares e não geométricas. Cidades clássicas de Espanha como Cádiz são os exemplos mais latentes de caos urbanístico de que se tem notícia no mundo medieval. A idéia de que é preciso desenvolver uma cidade estritamente planejada e racional é uma construção da mentalidade moderna - renascentista em especial. Além disso, no momento em que a Espanha lograva seus êxitos territoriais na América, quase que simultaneamente está sendo difundida na mente espanhola a idéia de unidade nacional. A unificação da coroa de Castilla com a coroa de Aragón algumas décadas antes dos descobrimentos marítimos espanhóis, criou um senso de unidade e pertencimento nacional de caráter expansionista jamais antes visto naquele país, resultando por conseqüência num povo confiante voltado para um futuro de glórias. Se sobressaem os sentimentos de coordenação e de orientação mais racional - mais até do que a religiosa, ainda que tenha se sustentado um país altamente católico. Por este motivo aliás, para as cidades espanholas, a Igreja não necessariamente deveria estar no centro.

Assim vemos uma preocupação muito grande em projetar na América uma "Nova Espanha", onde a Espanha se reconstrói perfeitamente racional no mundo americano - não havendo nem mesmo espanto e admiração pelas civilizações avançadas que eram encontradas. Portugal no tempo de descobrimento do Brasil, há estas alturas já havia experimentado esta euforia racional bem antes dos espanhóis. A consolidação do Estado nacional de Portugal havia ocorrido ainda no século XIV e às alturas de 1500, Portugal havia conquistado um Império mundial experiente, calejado, ciente das dificuldades de manutenção de todo aquele mundo ultramarino. Não é a toa que Portugal só viria a dar a devida importância às terras que havia "descoberto" na América já na segunda metade do século XVI quando a concorrência com os holandeses na intrincada disputa do mundo conhecido já havia se acirrado consideravelmente - sobretudo na Ásia. Não é que Portugal não se interessasse por desenvolver um território firme, sólido desde o seu início - ao invés, praticou uma política de semeadura. Semeia aqui e acolá, o Lessaiz-Faire colonial parece muito mais prático. Portugal desenvolveu na realidade um modelo único de administração colonial pautado na praticidade e na crença de desenvolvimento autônomo.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

África na Escola: Uma teia complexa





É muito comum encontrarmos nos estudos de História poucas, escassas ou nulas informações acerca da África. A aprovação da lei 10639/03 gerou e ainda gera muita polêmica nos meios escolares, afinal, tornou-se de um dia para o outro obrigatório o ensino de História da África e a maioria esmagadora dos educadores e educandos não estavam e aliás, ainda não estão preparados para lidar com o assunto - ainda que em uma sala de aula de todas as escolas públicas, pelo menos um aluno, numa média de 40 alunos por sala é negro ou mestiço. Como é possível, afinal de contas, dissociar a História da Humanidade sem olharmos para o continente de onde toda a civilização humana descende? A partir desta prerrogativa, passamos a compreender o porquê a História ensinada nas escolas possui uma aparência um tanto quanto distante para muitos alunos - afinal, sempre analisamos a História do Mundo de uma perspectiva eurocentrada e só agora fomos nos dar conta disso. Passado o estranhamento inicial e a superação de obstáculos básicos sobre a África - dados que vão além do tradicional Egito Antigo, é onde encontramos grandes problemas dos estudos africanos no Brasil e no Mundo, onde adentramos num campo absolutamente vasto de informações.

Afinal, quê África das "Áfricas" pintadas na Historiografia moderna (desde quando a História se torna uma disciplina no século XIX) vamos ensinar nossos alunos?

Discursos e imagens elaborados com a narrativa Eurocentrada

O discurso elaborado sobre a África é influenciado em grande parte pela projeção européia, no século XIX, da idéia de “África-Objeto” (que aliás também é responsável pela morfologia fronteiriça da África ao longo do dois últimos séculos) no processo de dominação política e econômica do continente pelas potências capitalistas européias, o chamado Neo-colonialismo. Esta dominação culminaria numa visão absolutamente distorcida a respeito da historicidade de povos com tradições e memórias milenares – sobretudo da África subsaariana – freqüentemente relegada a um segundo plano quando comparada a História norte-africana. Nesta linha identificamos o africanista Maurice Delafosse cuja primazia dos estudos subsaarianos na primeira década do século XX é ofuscada em grande parte por esta visão limitada e eurocentrada. Destaca-se também Yves Urvoy, historiador francês, autor de obras importantes como Histoire dês populations Du Soudan central (História das populações do Sudão central) de 1936 e Histoire de l’empire de Bornou (História do império de Bornu) de 1949.

Contribuições e limites do Afrocentrismo

Na espessa “poeira” que emerge no continente africano no período das independências coloniais, observa-se a emergência do afrocentrismo como instrumento de sobreposição ao modelo político estabelecido pelos colonos europeus. A Historiografia africana viria a mudar exponencialmente com o desenvolvimento de uma visão inclinada aos nacionalismos. Além disso, houve as independências mas a estrutura econômica dos países africanos permaneceu sendo colonial. O historiador senegalês Cheikh Anta Diop se destaca neste período numa abordagem acadêmica revolucionária que promovia o renascimento africano e o federalismo do continente. No entanto, sua abordagem é excessivamente Egito-centrista, deslocando toda a pluralidade africana na base das civilizações denominadas “Nilóticas” e pela importância acordada à noção de raça. Historiadores como o congolês Elikia M’bokolo ganham proeminência ao ressaltar a importância de se resgatar ricas memórias de civilizações da África subsaariana antes relegada ao Egito-centrismo. Sua obra-prima, L’Afrique noire. Histoire et civilisation (A África Negra: História e Civilizações) é de suma importância para os estudos historiográficos das civilizações africanas. E mesmo os acontecimentos políticos da República Democrática do Congo (ex-Zaire) e país de origem de M’bokolo, demonstram e exemplificam de certa forma o sentimento de resgate dos valores africanos contra aqueles estabelecidos pelos colonos. Nos anos de 1970, o então líder congolês Mobutu promove uma verdadeira “africanização” proibindo nomes ocidentais e cristãos. O próprio Mobutu havia, desde a deposição do líder Patrice Lumumba, modificado seu nome de Mobutu Joseph Désiré para Mobutu Sese Seko Koko Ngbendu waza Banga. Portanto, vemos a busca pela quebra de idéias que tornavam a Civilização Egípcia como a grande “fundadora” civilizacional do continente ressaltando que muitos reinos africanos ultrapassavam os limites de simples povoados ou tribos como a Historiografia tradicional havia tornado comum. Vemos a necessidade de se ter novas abordagens e observamos que o continente africano possuiu múltiplos eixos de desenvolvimento político, econômico, artístico, social e etc ao longo de milênios, além disso, não podemos ignorar todo o desenvolvimento de um “mundo atlântico” de onde se observa toda uma expansão multicultural africana para o Novo Mundo desde o século XVI com o processo de colonização das chamadas “Índias ocidentais”, o tráfico de escravos e etc. Tal panorama é demonstrado a partir da obra “O Atlântico Negro” de Paul Gilroy.

Estudos pós-coloniais e o pós-modernismo

A “cacofonia de discursos” gerada a partir dos panoramas historiográficos já mencionados na realidade moldou novos debates acerca da História da África. Vemos críticas aos modelos emergentes – sobretudo após a segunda guerra mundial onde evita-se difundir a noção de raça mas as supremacias político-econômicas das instituições hegemônicas permanecem intocáveis. O multiculturalismo como fonte de mudança nas estruturas de poder deve ser amplamente debatido. É preciso compreender que no processo histórico, o colonizador é influenciado pelo colonizado e vice-versa. A grande importância pela busca de “Micro-Histórias” locais tece uma Historiografia mais completa para a análise do todo, fugindo assim das categorias generalizantes A visão Pós-Moderna por sua vez inaugura a coexistência de uma teia de conexões históricas e a idéia de caos. Desde modo, até que ponto podemos definir a História não só da África mas das culturas globais como uma sucessão de múltiplos eixos contra a idéia de caos? A África e a Europa sempre se entrecruzaram em caos não lineares – fato que sempre existiu – não sendo exclusividade do panorama Pós-Moderno. O discurso Pós-Moderno traz a idéia de cortina de fumaça para um quadro multifacetado e de múltiplos eixos perfeitamente observáveis por meio do exercício histórico bem elaborado.